O que a cena cultural da Paraíba tem oferecido e revelado a quem chega de fora
- 5 de ago.
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Foto: Terracota Solo Criativo
Pensar nos atravessamentos culturais que a gente sofre ao longo da vida é curioso. Nasci no Ceará, fui criada em Pernambuco, nas margens de um rio onde atravessar uma ponte significava pisar na Bahia. Era a Ponte Presidente Eurico Gaspar Dutra, que liga Petrolina, em Pernambuco, a Juazeiro, na Bahia, sobre o Rio São Francisco. Duas cidades que se olham todos os dias sem cerimônia, como se a fronteira entre estados fosse só um detalhe diante de uma vida que segue igual dos dois lados. Hoje moro e estudo na Paraíba.
É interessante notar que, em cada uma dessas travessias, a arte nunca deixou de aparecer como caminho. Não no sentido de seguir carreira artística, mas no de crescer e amadurecer como alguém que consome arte dos lugares por onde passa e explora o mundo por um olhar cultural.
O teatro lotado
Quando cheguei à Paraíba, a primeira coisa que fiz envolvendo a cena cultural foi procurar todos os teatros possíveis (sou cria do teatro, confesso, puxo saco sem vergonha nenhuma) e mapear quais eram os mais antigos, os que ainda funcionavam, os mais acessíveis, os que poderiam acolher uma atriz amadora como eu. É engraçado como a arte, uma vez que te abraça de algum jeito, cria um vínculo quase territorial: antes de saber qual ônibus pegar, eu já sabia onde ficava o teatro.
Lá fui eu, pela primeira vez, ao Paulo Pontes, ver um espetáculo do grupo Magiluth, de Recife, que eu já acompanhava de longe. Para minha sorte, era gratuito, no Espaço Cultural, onde eu não sabia nem por onde se subia até chegar lá (subi errado três vezes). E foi lindo. Sempre achei intrigante essa atmosfera de reconhecimento entre as pessoas quando se encontram no teatro. Gente mais velha, crianças, professores, casais, amigos, todo mundo se cumprimentando. Fascinada com a cidade grande e o teatro enorme pra mim, vi um espetáculo forte, divertido, diferente de muita coisa que eu já tinha visto. Mas a primeira movimentação cultural paraibana que realmente registrei não foi a peça. Foi o Paulo Pontes lotado.
A cultura passa por esse tipo de atravessamento, não é? Augusto Boal dizia que a teatralidade é essencialmente humana, que todo mundo carrega dentro de si um ator e um espectador, e que representar num "espaço estético" (seja a rua, seja o palco) é a maior capacidade de auto-observação que existe. Isso vale para quem se apresenta e para quem aplaude no final. É exatamente aí que mora a importância real de consumir cultura: na auto-observação enquanto "ator" ativo.
Quem o teatro alcança
Com o passar dos meses, comecei a ver os mesmos rostos indo ao teatro. E me perguntei: é sempre a mesma galera? Sem perceber, eu mesma estava contribuindo pro achismo de que ir ao teatro é hábito de um grupo fechado, coisa de quem já tem costume, não de quem poderia passar a ter. Passei a pensar se as pessoas de João Pessoa que não vão ao teatro simplesmente não têm interesse, ou se é o teatro que ainda não chegou até elas de outras formas. E mais, os próprios artistas conseguem ocupar espaços como o Paulo Pontes e outros equipamentos da cidade, ou esses palcos também são disputados a dedo?
Pra mim, teatro sempre foi lugar de respeito ao sagrado. É por esse caminho que uma percepção de mundo diferente pode nascer. Nasceu em mim há muitos anos, no convívio com companhias de teatro comunitário no interior do Nordeste, onde tudo acontece dentro da própria comunidade, para a própria comunidade.
O que acho pertinente pontuar aqui também gira em torno do desinteresse da população, real ou construído, pelas movimentações artísticas gratuitas da cidade, porque a arte é feita em conjunto, ninguém faz arte sozinho. E penso de novo: por que não vejo rostos novos ocupando esses espaços? O teatro, nas suas mais diversas formas, tem realmente alcançado essas pessoas?
Talvez a pergunta mais dura seja: o que se perde quando alguém nunca dá chance a um olhar cultural do lugar onde vive? Perde-se repertório crítico, porque quem nunca viu outras formas de contar uma história aceita mais fácil a primeira versão que aparece. Perde-se também memória coletiva, porque a cultura popular, como o coco de roda e o teatro de rua, carrega histórias que não estão nos livros didáticos e que desaparecem quando ninguém mais consome. Perde-se, sobretudo, a chance de se reconhecer em algo maior do que a própria rotina.
A resposta que estava na rua
Se o teatro me fez essa pergunta incômoda, sobre quem chega e quem fica de fora, foi na música da Paraíba que encontrei um contraponto que me abraçou sem pedir ingresso. O Sabadinho Bom de João Pessoa, por exemplo, simplesmente acontece.
Entre um gole e uma dança, percebi que a Paraíba vive a sua cultura sem se dar conta. Talvez essa seja a forma mais honesta que vi de vivê-la, longe do modelo de teatro com ar condicionado e crítica especializada.
Quanto mais eu frequentava esses espaços, mais percebia que essa abertura não é só uma questão de acesso, é também uma questão política. A arte independente é também uma prática decolonial. Ela rompe com a lógica de que cultura de valor é só a que vem filtrada pela academia e por espaços institucionais, um modelo herdado de uma estrutura colonial que decide o que é "alta cultura" e o que é "manifestação popular", como se uma valesse mais que a outra. Quando o coco de roda acontece na praça, quando o forró toma conta de um bar de esquina, existe uma reafirmação de saberes que sempre foram tratados como secundários, mas que carregam raízes afro-indígenas, oralidade, memória e resistência.
O coco de roda foi minha segunda escola depois do teatro, e talvez a mais generosa. Enquanto o palco às vezes exige uma certa distância, o coco de roda te puxa pro centro. Foi assim que conheci a força de Vó Mera, Domerina Nicolau da Silva, mestra que canta coco e ciranda desde menina.
Foi nesse mesmo terreno de potência que conheci Sandra Belê, de Zabelê, no Cariri paraibano, que carrega o nome da própria cidade natal como sobrenome artístico. Cada letra que ela canta parece ter peso de quem percorreu décadas de música com a voz. Há também a magia de Elon, que nasceu em Pombal, compôs sua primeira música aos quatro anos e hoje mistura brega e sertão queer num mesmo som. Uma prova de que a tradição paraibana é viva.
A lista não para por aí. Pude conhecer o som do Jaguaribe Carne, da Cabruêra, de Pricler e as Panteronas, Milton, Glue Trip, Seu Pereira e Coletivo 401, Totonho, Titá, Cátia de França, Pedro Índio Negro, o forró d'Os Fulanos, Escurinho, Clara Potiguara e tantos outros nomes independentes que foram entrando na minha vida aos poucos. Essa travessia sonora é só uma fatia do que a Paraíba tem pra oferecer. Ainda tem as artes visuais, a literatura, a dança, o cinema e tantos outros segmentos.
Foi ouvindo essas vozes tão diferentes entre si, artistas tão singulares e tão coletivos ao mesmo tempo, que entendi algo que o teatro ainda não tinha me mostrado com tanta clareza: a cultura paraibana não é uma coisa só, é um coro de gente que canta e dança em tons completamente diferentes e, ainda assim, se reconhece na mesma terra.
Talvez a resposta para a minha pergunta sobre quem o teatro alcança esteja nas ruas, nos bares, nas rodas. A cultura também chega até as pessoas quando ela não exige que elas cheguem até ela primeiro.
Sigo migrante, apreciando todo e qualquer atravessamento cultural que me abrace também.
Anna Louyse
Terracota Solo Criativo


Viva a cultura e suas variadas formas de presença.