Escurinho: a genialidade da inquietude
- 4 de ago.
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Foto: Carol Andrade/ A Pauta é Cultura
Esse portal nasce com a sorte de ser inaugurado com um papo com o mestre Escurinho. Se isso não é uma bênção, eu não sei o que é.
Correndo o risco de tornar esse texto pessoal demais, preciso dizer que isso faz todo sentido pra mim, porque foi lá pelos anos 2000 que vi Escurinho tocando pela primeira vez, o primeiro artista da Paraíba que vi ao vivo, em Tambaú. Ele e o queridíssimo Tony Leon.

Janeiro/ 2012
Ouvir Escurinho é entender que a genialidade é inquieta, que as conversas são rios: navegam e deságuam, às vezes pelos olhos. Esse encontro foi incrível, emotivo, genuíno, sensível, engraçado. Aquele misto de sentimentos que só Escurinho consegue colocar, de uma vez, num momento só.
Comecei perguntando por que a ciranda. Ele disse que toda a sua trajetória foi construída em cima da cultura popular, e que a ciranda é um de seus ritmos preferidos.
Até morar no litoral, Escurinho tinha mais relação com o coco, o forró e o rock. Foi no litoral da Paraíba e de Pernambuco que ele conheceu a ciranda, que fez questão de pontuar como fruto das culturas indígena e negra.
"Não me considero um cirandeiro, mas compus muita coisa de ciranda no início da minha carreira, na aproximação com territórios como a Penha, com Lia de Itamaracá, que também conheci. Tudo isso me deu mais possibilidade de ter a ciranda na minha obra, como tenho outras coisas."
Ele também explicou como a ciranda se desenvolve no sertão e no cariri. Contou que no sertão, por exemplo, ela se manifesta de forma mais lúdica e menos como manifestação, diferente dos cortejos do litoral.
Tudo começou em Catolé
Ele contou que foi em Catolé que a música começou, ainda no movimento estudantil, durante a ditadura militar. Foi quando Escurinho, Chico César, Branco e Adonias criaram o Grupo Ferradura. Levaram diversos prêmios em Cajazeiras, Catolé, Sousa e outros municípios.
O Ferradura atuou durante três anos no interior da Paraíba. Foi em 1980 que a vida tomou outros rumos para os integrantes, e com o fim da banda, Escurinho foi estudar em Recife.
A música em João Pessoa
Em seu retorno à Paraíba, já na capital, Escurinho passou a pagar as contas com a música, que já tinha virado sua fonte de renda. Contou que, de início, foi por necessidade. Fez barzinho, banda de baile e a música foi se profissionalizando.
Depois de um trabalho com Pinto do Acordeon, em 1993, a vida do artista mudou com o convite para a direção musical do espetáculo "Vau da Sarapalha". Foi tocando, e posteriormente atuando, que Escurinho rodou o mundo. Esse mesmo espetáculo, inclusive, o levou para o front.
Músico de acompanhamento e diretor musical, Escurinho dificilmente aparecia. Durante essas temporadas, foi ganhando cada vez mais espaço e ocupando a frente do palco, fruto da insistência de Luís Carlos Vasconcelos, diretor do espetáculo.
Foi numa apresentação experimental para poucos convidados que nasceu o primeiro show de Escurinho como artista solo: Labacé. Em seguida, veio a programação no mês da consciência negra, depois, o Theatro Santa Roza e a vida deu uma guinada.
Entre um show e outro, numa agenda já lotada, Escurinho conheceu grandes companheiros de música como Alex Madureira e Pablo Ramirez, que chegaram pensando novos caminhos para potencializar musicalmente o discurso que ele já tinha. O movimento deu certo e começou a chamar a atenção inclusive de artistas de estados vizinhos.
Em contato com artistas pernambucanos, Escurinho chegou a trazer Lula Queiroga à Mangabeira para ver de perto a música feita na Paraíba. No mesmo período, tocou no Abril Pro Rock, em Recife, a convite do produtor do evento à época.
Foi nessa efervescência, levando a música a cada vez mais palcos, que Escurinho lançou três discos: Labacé, Malocage e O Princípio Básico. Depois veio Ciranda de Maluco, que completou 20 anos em 2024.
Tudo valeu a pena
Perguntado sobre o passado, Escurinho contou que diria ao Escurinho do Grupo Ferradura que "a gente tá no caminho certo. Não vai ser fácil, mas o caminho é esse". Ninguém pode dizer o contrário. Segundo o artista, naquela época ele não tinha ideia do que viria pela frente. Eram só revolucionários, querendo mudar o mundo.
O Jaguaribe Carne
Dessa mesma ebulição de Catolé nasceu também uma amizade que marcaria sua trajetória. Escurinho conheceu o Jaguaribe Carne através de Chico César, que trabalhava numa livraria e recebia jornais e revistas locais. Num desses exemplares, veio a notícia de que um grupo de João Pessoa havia sido preso num festival em Recife. Num período em que a ditadura ainda autorizava alguns discursos, as letras do Jaguaribe Carne, sempre inteligentes, passaram pelo crivo do regime. O que não previam era uma performance crua, com lixo no palco, naquele estilo que só Pedro Osmar e Paulo Ró sabem fazer. Os revolucionários de Catolé acharam aquilo incrível.
Escurinho procurou os artistas da capital paraibana que haviam sido heroicamente presos.
Não só os conheceu como virou companheiro de lida. Contou que a música do Jaguaribe Carne não é só a música em si. "É um pensamento, poesia, cinema, teatro, artes plásticas, política. A importância do Jaguaribe Carne não é só musical, mas de consciência política, da possibilidade de criar", afirmou Escurinho.
Um repertório sempre atualizado
"Todos os meus discos têm músicas que preciso tocar nos shows." Escurinho contou que, quando começou a fazer música, a preocupação era com a sua verdade, não com lançamentos.
"Os temas da música que faço são crônicas da existência humana. Se você me ama, que me ame agora. Isso é do ser humano. Quando a gente se aflora a criar, tem que ser o mais verdadeiro possível. Essa inquietação é do artista. O artista que quer ser um criador nunca pode viver numa redoma, precisa estar em contato com a sua verdade", disse o artista.
A música no interior da Paraíba
Como um artista que veio do interior da Paraíba, sendo originalmente do interior pernambucano, Escurinho destacou a importância de reconhecer a música feita fora das capitais e das grandes cidades.
"Tem muita gente produzindo música em Cajazeiras, Sousa, Catolé. Catolé é um polo que já está até exportando músico para Europa, direto do Instituto Cultural Casa do Béradêro, que Chico César fundou. Cajazeiras tem um movimento de rock pesado, Marizópolis tem festival de rock."
Foi num movimento de valorização e articulação que Escurinho saiu de Catolé para tocar em João Pessoa e ganhar o mundo. Quantos Escurinhos a Paraíba ainda não conheceu?
Pra nossa sorte, Jonas é nosso. Viva Escurinho!
Carol Andrade
A Pauta é Cultura/ Terracota Solo Criativo


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