top of page

O Porto precisa subir a ladeira

  • há 5 dias
  • 3 min de leitura

Uma reflexão sincera sobre o disco de Erick de Almeida e a relação do artista com o seu discurso


Foto: Carol Andrade


Por Carol Andrade


“Pare, olhe, escute! Aqui tem gente!” é o nome do novo trabalho de Erick de Almeida. O disco, que conta com 11 faixas, lançado no último dia 14, é uma homenagem e grito de guerra que se une aos moradores do Porto do Capim, em João Pessoa, na luta pela permanência em seu próprio território. Produzido pela YB Music em parceria com a Taioba Music, ele veio acompanhado de videoclipe e de um documentário com cerca de 15 minutos, contando sobre a relação do artista com o território.


O trabalho como um todo é emocionante. A maneira com que Erick se conectou aos moradores do Porto, numa relação construída há mais de uma década, é bonita como tudo que é genuíno. A verdade é que a sensibilidade de um educador é sempre latente. Isso porque, e é fundamental que se fale sobre isso: ele não criou aquelas histórias, mas retratou uma comunidade que protagoniza esse trabalho tendo voz. Parou, olhou e escutou, sobretudo, pra engrossar o caldo da resistência. 


O que mais me chama a atenção nesse trabalho é como Erick nega a figura do salvador pra se juntar ao povo que ele já conhece, já convive e que já valoriza, independente de qualquer coisa. Eu vi os moradores do Porto cantando todas as músicas no Café da Usina, na estreia desse show, emocionados, provavelmente, por se reconhecerem e, talvez, por pensarem “finalmente”.


Esse disco passeia não só pelas histórias dos moradores, mas pelos causos que só os ribeirinhos conhecem. Passa pelo que acreditam, pela maneira como veem o mundo. Tem coisa que só quem pertence, sabe. De Comadre Florzinha à festa de Nossa Senhora, dentre tantos outros contos, o canto só existe porque todas essas histórias o precederam (e foram vividas). 


Vindo de um lugar que se chama Brasília Teimosa justamente pelo seu histórico de resistência, não só me solidarizo como reconheço a necessidade de um movimento como esse e me emociono. Escrevo esse texto no camarim, em Campina Grande, onde logo mais vai rolar esse show. E escrevo pra dizer que esse trabalho precisa circular pela Paraíba e pelo Brasil adentro. 


A gente precisa falar mais da arte como ferramenta de luta. A arte é natural e impreterivelmente política. Não necessariamente partidária, mas sempre política. 


Quando um show como esse rompe as fronteiras, a luta cresce e se fortalece. Cada palco ocupado é também ocupado por dona Odacy, seu Alagoas, Rossana e por tantos outros moradores de um território que ainda luta há gerações - surpreendentemente - pra viver num espaço que é seu. 


Pra além da necessidade de um trabalho como esse no mundo e rodando, também preciso falar sobre a sensibilidade das letras, dos arranjos, do discurso, do cênico. Como bem disse Ali Cagliani: “Quem nunca pisou no Porto do Capim, consegue visualizar aquele território através das músicas de Erick”. E como é importante se colocar nesses espaços, refletindo mesmo que minimamente, sobre a angústia de pertencer e, ao mesmo tempo, paradoxalmente, não ter. Não ter a certeza da moradia, da dignidade de viver num local já enraizado.


Quem ainda não ouviu esse disco, não perca mais tempo. Quem ainda não foi no Porto do Capim, não conhece João Pessoa.


 
 
 

Comentários


bottom of page