O avesso da criação
Numa conversa sobre raízes, madrugadas e a cidade que ainda não o enxerga por inteiro, o artista paraibano Hicor abre o bastidor da própria obra

Foto: Anna Louyse Cerqueira / A Pauta é Cultura
Por Anna Louyse Cerqueira
Antes da tela, havia o carvão. Sobrava da churrasqueira da avó e virava desenho nas paredes e no chão. É desse lugar anterior à obra pronta que esta matéria parte: o processo, o bastidor, o gesto que costuma ficar de fora da moldura e, sobretudo, a inspiração. Com Hicor, fui atrás do que ele mesmo chama de oculto, palavra que volta várias vezes quando ele fala do próprio trabalho. O que vem a seguir é uma conversa sobre raízes, esperança, fé e os sonhos que guiam a mão na hora de criar.
Felipe da Silva Batista, Hicor, começou a desenhar ainda criança. Algumas reportagens que acessei durante a minha pesquisa apontam a avó como ponto de partida. Perguntei até onde ela moldou o artista que ele viria a ser, e a resposta foi mais sutil do que essas matérias sugerem.
"Se não fosse ela, isso não teria começado, mas foi de forma indireta. Ela não desenhava comigo, mas foi quem incentivou esse movimento. Trabalhava com viagens, tinha a própria loja, era uma referência de movimentação pra mim. Minha família por parte de pai é quilombola, e ela fazia essa ligação com a comunidade onde eu cresci. No quilombo a gente tinha acesso à terra cheia de argila vermelha, amarela, de todas as cores. E quando comecei a usar o carvão foi porque minha avó vendia churrasquinho. Eu ficava do lado pegando o resto do carvão pra pintar as paredes, o chão."
Na idade em que o mundo começa a se apresentar, e a escola costuma ser o lugar mais confuso dele, Hicor estava ocupado com outra coisa. "Eu ficava no fundão desenhando a sala de aula em perspectiva. Ninguém ensinou, era uma percepção que eu tinha", lembra. Foi só no fim do ensino médio, com o professor Gláucio Figueiredo, que o hobby ganhou cara de futuro.
"Vindo de comunidade ribeirinha, é complicado ter esse incentivo, porque meus pais não puderam ter. Principalmente de acreditar no talento, num talento bruto que já vem de você." Com Gláucio, ele entendeu que aquilo "poderia realmente se tornar um meio de vida".
Caminhando com o oculto
Quis saber o que teria sido daquele menino do carvão se a arte não tivesse aparecido. A resposta já entrega o que ele persegue na tela, consciente ou inconscientemente.
"Provavelmente psicologia. Eu sempre me levo pras questões do inconsciente, do oculto, do comportamento automático. Aquilo que está ali, mas que a gente não quer ver ou acaba não vendo."
Mesmo no retrato realista, o que ele procura mora por baixo do visível. "Não busco só os detalhes. Busco o estado interno daquela pessoa, o estado espiritual, o que está oculto nela. Sempre tive esse talentinho de enxergar isso nas pessoas."
O que guia a mão
Há quem recorra às matrizes africanas como referência estética, algo que se escolhe e se incorpora à obra. Com Hicor, a relação é mais profunda, como uma força que atravessa o corpo antes de virar obra. Perguntei se, quando pinta, existe uma ancestralidade que o move antes mesmo da intenção. Ele diz que sim, e que ela chega quando menos se procura, quase sempre de madrugada.
"As melhores ideias que eu já tive vieram quando acordei de madrugada e fui direto escrever, senão ia passar, eu ia esquecer. Não parece algo que estou pesquisando ou investigando. Vem naturalmente, quando estou à toa."
E o que vem primeiro, a imagem na cabeça ou a vontade no corpo?
"Às vezes acordo e não sinto nada, mas penso em algo. Outras vezes é o contrário, acordo e sinto o mundo inteiro. Quando consigo me desconectar da análise, do perfeccionismo, eu simplesmente sinto a inspiração. Eu crio e trabalho melhor de noite, quando a cidade dorme e prevalece o silêncio."

Foto: Anna Louyse Cerqueira / A Pauta é Cultura
Da rua ao bastidor
Se o estado interno decide a hora de criar, decide também onde a obra vai morar. A arte urbana entrou cedo na vida de Hicor pelas mãos de Cyber (Cybele Dantas), que já partiu e foi madrinha de muita gente na cena cultural paraibana. "Foi ela que me deu minhas primeiras duas latas, num evento de som e grafite. Mas quando tive contato com o processo das artes plásticas, me apaixonei."
Perguntei como ele decide se uma ideia vai para o muro ou para a tela, e o que muda no corpo, no tempo e na intenção entre a rua e o ateliê.
"Se eu te disser que depende muito mais de como eu estou do que da arte em si? Eu gosto muito do processo recluso, do bastidor. O grafite não te dá bastidor: você vai pra rua e todo mundo está te vendo fazer. Se estou bem pra ter esse contato direto, gosto de pegar um mural e estar com as pessoas. Mas na maioria das vezes prefiro o bastidor. Até quando vou grafitar, escolho um lugar onde consiga ter concentração."
Ser da Paraíba
Uma cidade entra na obra de um artista pela luz, pela temperatura, pelo ritmo, pelos sons, pelas cores. Perguntei a Hicor o que João Pessoa dá a ele que nenhum outro lugar daria, e ele começou pelo óbvio que a gente costuma esquecer. "O lugar em que a gente vive atravessa nossas criações, nossa vida inteira, nossas relações, nossos sentimentos."
Mas o orgulho vem acompanhado de incômodo. Em Brasília, onde foi entregar um trabalho, perguntaram mais de uma vez se ele era de Salvador. "Não. Sou da Paraíba. Faço questão de dizer: sou da Paraíba. Passar por uma experiência dessas até tira a motivação." É a fala de quem quer que o estado ande junto e ocupe, com ele, espaços de protagonismo.
Ele deixa claro que não está pedindo privilégio. "Não estou dizendo que artista tem que ser tratado de forma especial, mas o reconhecimento, com certeza, não é absurdo." E aqui entra um questionamento que também é meu: que espaços a cidade reserva a quem é da terra? Hicor circula por todo o circuito cultural local e alcança espaços importantes fora do estado, mas encontra poucos aqui, onde vive e cria.
É essa falta de reconhecimento e incentivo que empurra tantos artistas pra fora. "Ficam um bom tempo, até sentirem que aqui não vão pra frente, e aí desistem da cidade e saem. Vão ficando as pessoas que já não acreditam tanto. Tem muito artista, de vários segmentos, que gosta da Paraíba mas largou a mão."
O que o segura, por enquanto, é conseguir furar essa barreira sem sair do lugar. "O que me mantém aqui é poder vender o trabalho online, fazer ele chegar a outros espaços sem precisar estar lá. Tem muito mais impacto quando estou presente, mas consigo fazer chegar. Só não sei por quanto tempo isso vai sustentar a vida do artista."
Olhos de Deus
A série mais marcante da trajetória dele, Olhos de Deus, nasceu em plena pandemia como exposição virtual e celebra a beleza e a força da diversidade das pessoas pretas. Quis saber de onde veio o título e o que esses olhos veem que a gente ainda não percebeu.
"Começou falando sobre esperança, sobre acreditar em dias melhores. As notícias mandavam ficar em casa, mas muita gente não podia. O pessoal da margem teve que se apegar a uma esperança sobrenatural. Daí as crianças, com um olhar até melancólico, a fé de acreditar que pode ter futuro. Eu vi Deus ali, nas crianças." De qual Deus se trata, ele faz questão de deixar em aberto.
O sangue nos olhos
Comparando o artista de 2017 com o de hoje, Hicor acha as obras de agora melhores, mas sente falta de um certo brilho. O que aquele tempo ainda ensina é abraçar o fracasso do processo, não querer acertar sempre. "Em 2017 eu abraçava o movimento, não importava o que acontecesse ou o que as pessoas fossem falar." A energia daquela fase ele resume numa imagem:
"Aos 16 anos, morando encostado ao rio, eu acordava vendo jacaré na avenida. Aquele sangue nos olhos de abrir caminho eu tinha muito. E ainda tenho."
Enquanto ele falava, me veio à cabeça "Com medo, com Pedro", canção que fala de perder o medo depois de já ter se jogado no mundo. É o mesmo impulso de abrir caminho sem esperar permissão que Hicor carrega desde os 16.
Perguntei se existe diferença entre o Hicor que pinta pra se curar e o que pinta pra ser visto. Ele recusa essa palavra. "Não é exatamente cura que eu busco. Me envolvo com a arte porque ela me traz paz. Todo artista tem que aprender a validar o próprio processo, aquele dia a dia, aqueles meses em que ninguém está vendo, ninguém está aplaudindo." E conta uma teimosia bonita: as obras que venderam foram sempre as que ele não queria vender. As que fez pensando em agradar "ficaram lindas, mas não vendi nenhuma".

Foto: Anna Louyse Cerqueira / A Pauta é Cultura
O que só vai ser entendido lá na frente
Perguntei o que ele espera que as pessoas sintam diante de uma obra sua daqui a dez anos, sem saber que é dele. A resposta tem a calma de quem se acostumou a chegar antes. "Sinto que meu trabalho não vai ser entendido agora. Parece pesado dizer, mas ele só vai ser sentido lá na frente. As coisas que estou apontando talvez venham à tona de forma mais impactante lá pelos meus 40, 50 anos."
Ele mesmo se reencontra depois. "Às vezes pinto pelo inconsciente, e só quando paro e reflito é que vejo que naquele momento eu estava sentindo aquilo." E o que ficou pelo caminho foi justamente o controle. "Deixei de lado aquela voz crítica que me fazia querer controlar o processo. Ainda estou lutando pra deixar ela de lado, pra abraçar mais o fluxo e deixar as coisas acontecerem."
A criança que está em terra
Quando pedi para entender uma obra com mais atenção, Hicor parou e me conduziu o olhar por uma tela ainda em construção. Antes do conjunto, pediu que eu reparasse em cada presença. É um mundo inteiro em camadas. No alto, figuras se equilibram nos galhos de uma árvore, gente suspensa entre folhas e cipós. Um peixe atravessa a parte de cima, uma serpente dourada desce pela lateral, um jabuti caminha rente ao chão. No centro, uma figura de turbante vermelho, com olhos que não estão aqui, e a seus pés um galo. Nada ali está solto: cada ser ocupa um lugar e carrega um significado.
O que ele queria mesmo que eu sentisse estava no meio de tudo, na criança.
"É uma entidade afro-indígena da Paraíba. E aqui está a criança. Ela é a única que está em terra, a única que realmente está em terra. Está observando o futuro, com aquela sensação de que tem algo por trás, algo que ela está sentindo. E aqui está quem acompanha ela, o galo, em referência a Exu."
Enquanto tudo ao redor paira, a criança é a única desperta e protegida, olhando pra frente como quem já sabe que o futuro pede essa presença.
Por fim, por que Hicor?
Deixei a pergunta do nome pro fim. "Estava no meio da pandemia me conectando com artistas, e todo mundo tinha um nome, um vulgo, e eu não tinha o meu. Pensei no que mais gosto de expressar, e me expresso muito pelas cores. Quando estou sentindo algo, relaciono a uma cor. Ia colocar só Cor, mas lembrei que meu pai sempre dizia que meu nome seria Igor. Juntei as duas histórias e nasceu Hicor."

Foto: Anna Louyse Cerqueira / A Pauta é Cultura
Do carvão da infância ao nome que guarda a cor, Hicor segue pintando o que a gente ainda não aprendeu a ver.



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