"Faz 32 anos"

Foto: Reprodução/ Galeria Marco Zero
Por Joyce Barbosa
Este mês eu fui a uma grande exposição de um grande artista que eu admiro
silenciosamente, não só pelo que ele cria, mas especialmente pela forma como ele se
relaciona com o tempo e a lógica da estrutura das coisas. Lá eu descobri que o evento
se dava em virtude, também, dos seus mais de trinta anos como professor, o que me
emocionou ainda mais, pois não é tão simples, como se faz crer, a união da docência
com o ofício artístico.
À medida que eu adentrava no espaço e as obras se mostravam em sua
grandiosidade, eu fui me sentindo profundamente impactada, como sempre me sinto
quando vejo os trabalhos dele. Em determinado momento, parei em frente a uma
enorme instalação, me sentei e lá fiquei por bons minutos. O vermelho tomava conta
de tudo. Senti-me pequena e vulnerável. Sensação que, apesar de ser devastadora, é
incrivelmente maravilhosa nesse contexto, porque me recoloca diante do mundo
precisamente na medida da minha insignificância — e isso me anima como Homo
sapiens.
Do lado de fora estava acontecendo um coquetel: o jardim lotado de admiradores,
pessoas conversando sobre cinema, profissão, amor pela arte, teatro paraibano,
literatura, política, saúde, poesia, fotografia, enquanto tomavam champanhe, vinho,
água saborizada e comiam lindas porções de frutas e sementes brilhantemente
servidas.
Sentei-me, feliz demais por estar ali, e contemplei a enormidade de todo aquele
momento, não só para ele como para nossa cidade, por saber que temos um
paraibano à altura da nossa magnificência. Por minutos, pensei em como somos um
povo esplendoroso e como nossa cultura é rica e frondosa, e que não é todo dia que
temos a chance de encontrar obras como aquelas, de presente para nossos olhos.
Eis então que uma mulher se aproxima, assenta-se ao meu lado e diz: “Que grande
artista, não é?! Obras surpreendentes!”. E eu concordo com ela. Após um longo
período de exaltação ao trabalho que estávamos presenciando, ela me pergunta sobre
o que eu faço da vida. Digo que sou artista. Ela pergunta de que “tipo”. Digo: “Da
dança”. Um minuto de silêncio. “Como você se chama?”. Digo meu nome. Um minuto
de silêncio. “Eu amo a dança!”. Dou um sorriso e pergunto quantos trabalhos de dança
ela já viu. Cita então a Deborah Colker e o Grupo Corpo. Concordo com ela que são
os maiores, sem dúvida. Pergunto: “E da Paraíba?”. Um minuto de silêncio. “Você
dança faz tempo?”. Sim. “Um prazer te conhecer! Até mais!”.
Assim que ela foi embora, eu ri. Ali estava, presentificada, a minha irrelevância. A real
insignificância que minutos antes eu havia sentido se manifestou no meio de um
banquinho entre as árvores e as belas plantinhas que decoravam o espaço.
Reverenciei aquele momento com graça, como quem bebe água em um copo de
cristal, e achei belíssimo como não somos nada diante de tudo que criamos.
João Pessoa, setembro de 2026.

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