“O que desaba quando as artes desabam” – por Joyce Barbosa
- 14 de jul.
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Foto: Joyce Barbosa
Há mais de 20 anos, no Festival Internacional de Dança do Recife, vi um solo de uma artista em que ela entrava em cena carregando várias pedras, de tamanhos irregulares e escuras. Ela as depositava tranquilamente no chão, de maneira organizada para, em seguida, começar uma dança extremamente vigorosa, em pé, pelo palco. À medida que, com cuidado, as redistribuía pelo espaço seus movimentos tornavam-se lentos e ainda mais precisos.
Em determinado momento, ela pega uma pedra específica, caminha com ela até um ponto mais afastado do tablado, passa os lábios em sua superfície, sujando-a de batom. Parece um beijo, mas também parece a tentativa de marcar aquela pedra. Aquele gesto se intensifica. Então, ela para. Coloca o objeto no chão e volta a dançar, só que agora, seus movimentos são repetitivos numa espécie de queda e recuperação. Ela cai diversas vezes ao chão e sobe rapidamente como alguém que, se afogando, busca no chão do rio, uma terra firme para ganhar impulso.
Atualmente o prédio das artes cênicas da Universidade Federal da Paraíba está desabando. O teto do vão central não existe mais em sua totalidade, porque a cada dia, um pedaço voa com o vento ou cai com as chuvas. As águas que entram escadaria abaixo, promovem tombos de estudantes e servidores, que se machucam e não conseguem trabalhar. As salas, com suas paredes tomadas de mofo e seus tablados com pedaços arrancados, tornam-se lugares inviáveis à prestação do serviço educacional de qualidade. Sem contar com a ausência, até hoje (os cursos têm mais de uma década de existência), do espaço teatral cênico para as atividades de formação dos estudantes, restando anexado ao prédio apenas a ruína do famoso Teatro Lampião.
O Centro Estadual de Artes da Paraíba, em seus dois locais de existência, no centro e no Espaço Cultural, segue com problemas de ausência de ar-condicionado em algumas salas, além de banheiros com defeitos, goteiras e mofo. Há professores que levam seus ventiladores pessoais para que possam realizar seus trabalhos com o mínimo de conforto.
Sintoma de uma sociedade desconectada da engenharia da coletividade, as coisas, assim como os homens, vão desabando, com e sem sentido metafórico, e as estruturas, que ali deveriam funcionar para dar suporte ao recheio criativo, vão sendo desarticuladas do todo como peças de um tabuleiro que acha que pode viver sem elas.
A desimportância que damos ao processo criativo humano se manifesta logo cedo pela descrença do que ele pode gerar enquanto dinheiro, afinal vivemos num sistema que privilegia as pessoas quando o que elas fazem têm uma profunda utilidade. Porém, as coisas ditas inúteis são vistas assim por uma construção social bem arranjada para que pensemos que um curso de licenciatura em dança possa ficar sem um teatro, mas um curso de medicina não possa jamais existir sem um laboratório de anatomia.
Um chão e um teto sempre denunciam onde estamos. Eles são espelhos e refletem o quanto estamos ou não inseridos em algum lugar e o quanto este nos quer, de verdade, por lá. E dessa vez me valho completamente da metáfora para pensarmos que nada é construído sem que algo seja sonhado anteriormente. Nada é possível sem a chance da imaginação. Cursos de teatro e dança são essa chance para o mundo. As pessoas que o fazem seguram lanternas nas mãos apontando caminhos para que a sociedade não sucumba diante de tanto desempenho.
Ao final do espetáculo, a bailarina, depois de muito cair e levantar como quem conta uma história de um grande amor e de um enorme sofrimento, para de se lançar ao solo, ergue-se, limpa-se, recolhe ao seu colo as pedras espalhadas pelo palco e sai, deixando apenas aquela pedra. Aquela marcada pelo vermelho dos seus lábios. Aquela que, dentre todas as pedras escolhidas, conta de um tempo vivido, de uma memória que não se ausenta do espaço que precisa sustentar. A pedra ainda está lá.
João Pessoa, julho de 2026
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