"Lá vem a barca chamando o povo"
- 5 de ago.
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Foto: Rafael Passos
Por Lucas Gaião
Escuta, aqui temos um espaço para discutir as nossas escutas musicais e todas as outras percepções que as acompanham. Afinal de contas, escutar uma música é mais do que apenas ouvir o fenômeno acústico, toda música acontece em contexto e é disso que vamos falar aqui, da(s) música(s) no seu sentido mais amplo. A cada quinze dias um novo tema do universo da música e - principalmente - da música paraibana, sob a ótica de um músico em atuação, pesquisador em formação e amante desse mundo dos sons que entende sobre a certeza de ter muito mais para aprender. Essa coluna é opinativa, aqui - por mais que muitas das minhas opiniões advenham dos meus estudos - pretendo deixar os academicismos de lado (na medida do possível) e falar sobre música de uma maneira mais descontraída e pessoal, mas com a seriedade que requer.
Para começar, achei simbólico falar - nesta primeira coluna - sobre o Musiclube da Paraíba, enxergando esse movimento como uma inspiração e um marco na história da música popular paraibana. É fato que muita gente não sabe o que foi o Musiclube, talvez pela baixa autoestima cultural do povo paraibano que parece levantar e bradar ferozmente uma bandeira que traz a seguinte frase no centro: “santo de casa não faz milagre”. Não se enganem, o povo não é assim porque quer, existe uma trajetória constitutiva dessa lógica cultural que envolve: a ausência de um maior fomento da cultura local, políticas culturais para turista ver e muitos outros fatores que deixam à margem pessoas que movem diariamente a engrenagem da arte paraibana. Mesmo sendo a música “a prima rica” das outras artes, o cenário não é diferente e pensar a partir do Musiclube pode ser um caminho para entendermos a música além do som nas suas qualidades exclusivamente físicas.
O Musiclube da Paraíba foi uma entidade de classe que surgiu na cidade de João Pessoa no início da década de 80 pelos quais passaram diversos artistas paraibanos, dentre eles Totonho, Pedro Osmar, Paulo Ró, Cátia de França, Adeildo Vieira, Gláucia Lima, Vital Farias e muitos outros. A entidade surgiu após a estadia de Pedro Osmar - artista paraibano, co-fundador do Jaguaribe Carne - no sudeste do Brasil na primeira metade da década de 70. Nesta época Pedro teve contato com pessoas, locais, organizações e eventos que o fizeram propor, mais tarde a criação da “Coletiva de Música de Paraíba”, uma espécie de mostra musical que foi realizada no Teatro Santa Roza em quatro quarta-feiras de junho de 1976. Com a participação de diversos artistas atuantes na época, a Coletiva de Música promoveu a coletividade - como o nome sugere - a partir de colaborações e troca de experiências dos artistas envolvidos e semeou ideias e ideais que afloraram na criação do Musiclube da Paraíba.
As reuniões do Musiclube aconteceram em lugares diversos - no Teatro Lima Penante, em um grupo escolar no centro da cidade e até na casa de um dos membros - quando artistas se reuniam para discutir a cena cultural da capital paraibana em termos políticos, profissionais e estéticos. Desses encontros surgiram muitas ações, a exemplo do projeto Tocar por Prazer que promovia shows de membros do Musiclube com produção coletiva, isto é, todos os membros trabalhavam para o show dos artistas da edição, exercendo funções variadas.
O Musiclube nos ensina sobre o poder da coletividade. Apesar de não existir mais enquanto movimento, a lógica e os ideais do Musiclube da Paraíba perduram nas pessoas que o fizeram e/ou que tiveram contato com esses, no entanto não se enxerga mais na cena musical paraibana (até onde sei) proposições coletivas dessa dimensão e com objetivos que extrapolam o produto musical, apesar de estarem totalmente ligadas a ele. Em tempos de individualidade latente, despolitização e desvalorização das pessoas fazedoras de arte, precisamos olhar para a trajetória do Musiclube e dos seus agentes e pensarmos a música - e a cultura - além do evento, para parafrasear o portal que provocou esta coluna. A coletividade é o caminho para as necessárias lutas políticas, culturais e artísticas, estar no palco e fazer arte nos dias de hoje por si só é um ato político, de resistência, mas precisamos ir além, olhar para o que se faz fora dos palcos, para quem faz e para quem se faz.
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