Em João Pessoa não tem rolê?
- 5 de ago.
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Foto: Malu Lucena/ Acervo pessoal
Por Malu Lucena
Assim que o sol baixou, fui correndo tomar banho, colocar minha sandália de dedo (a mesma que me leva à beira da praia) e desci as escadas ainda guardando na bolsa todos os apetrechos essenciais para esta festa: chave de casa, desodorante e isqueiro. Saí com o cabelo ainda molhado e, sem tempo para procurar a touca que o protegeria na moto, usei uma sacola mesmo. Todo esse ritual, meio exagerado e ansioso, foi para tentar chegar na hora em que estava marcada a Ciranda Para Escurinho: um show beneficente reunindo nomes relevantes da cena musical Parahybana -alguns por merecimento, outros só pela barba no rosto e umas canções que fizeram sucesso, porque ainda temos a mania de separar a obra do artista por aqui. Mas nem era esse meu ponto, ó.
Cheguei ao local marcado para acontecer um momento que quem estava lá ainda não sabia, mas seria histórico. O público até poderia suspeitar, a julgar pelo line-up, que encerrava com o conterrâneo do homenageado: o gigante Chico César. Além disso, o ambiente dava alguns sinais. Em um dado momento, eu olhei para o lado e vi passar por mim Pedro Osmar. Fiquei atônita. Cumprimentei-o, como quem passa por um altar e saúda um deus. Estava vendo, à minha frente, o deus do cancioneiro paraibano. Mais especificamente, o professor de muitos dos artistas cujo front (assim como o de Escurinho) me faz transbordar numa experiência catártica. Entendi que o que estava para acontecer era coisa grande.
Parece que o pessoal tinha saído da letra da música ´Ciranda´, porque era moça de saia comprida, meninas de calça jeans, punks, hippies, teens, senhoras, moços, rapazes, crianças e um bocado de gente sem nem o perigo de perder a esperança. Foi lindo. Mesmo! E, como eu te disse, histórico. E foi, também, um belo exemplo do que público, artistas independentes e locais são capazes de entregar. E instituições também. Porque não tem como o rolê acontecer sem estrutura. Sem luzes na rua da General Osório quando Pernambuco e Paraíba decidem dar uma trégua em forma de carnaval fora de época. Lembra disso?
Em julho, o Bloco Minhocão de Olinda e o Tome Ladeira, pessoense, se juntaram num sábado que tinha tudo para ser blasé, não fosse a movimentação dos fazedores de cultura. Ao redor, porém, a baixa luz, as poucas lixeiras e nenhum banheiro. O que o poder público anda fazendo para garantir a existência de eventos independentes de menor porte? É essa ideia que vamos trocar por aqui.
Vamos passear pelas ruas, dando conta de tudo que acontece. De quem passa, de quem faz acontecer, de quem atrapalha, de quem toca, canta e de quem dança. A ideia aqui é fomentar, mas bora combinar que o caba também não é leso, né? Vamos questionar o que precisa ser questionado, celebrar a arte que fazemos e refletir sobre a boemia parahybana que tem vivido uma nova onda pós-pandemia, talvez tão forte quanto as histórias que ouço mainha me contar sobre os anos noventa na cidade. Quero que você me leia como se fôssemos mutuals numa mesa do Recanto Três Rua, do Loca Cento ou na calçada do BBS Lab. Discordando em concordar e concordando em discordar. O que mais importa aqui é que a pauta seja sempre a cultura.
Em “Usura”, Escurinho faz um clamor para que quem o ame, o faça no momento presente. E sob esse pensamento, eu te convido a pensar a Parahyba como uma entidade que clama aos seus vivos que a ocupem agora. E, se para Vó Mera, quem faz o artista é o público, para a Parahyba, quem faz o rolê são os paraibanos. Então fica o convite: bora se bater no rolê?
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