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Caminhos Brincantes: reflexões sobre saberes e produções da cultura popular

  • 19 de ago.
  • 4 min de leitura

Atualizado: 20 de ago.

Foto: Kell Barbosa


Por Lua Camboatá


São 15h22 de um domingo, na comunidade da Ribeira, perto de Forte Velho, distrito histórico e rural de Santa Rita, no litoral norte da Paraíba, a cerca de 39 km de João Pessoa, a capital. As saias já sobem aos quadris. As cordas apertam os bojos ao sol. Os cachorros se espreguiçam pelo chão. Ao fundo do pavilhão, o banheiro de lona cumpre seu expediente. Os PAs estão sintonizados. A vassoura já deu boa tarde ao cimento. O óleo estala, esquentando as batatas. Na beira da pista, os carros passam de vez em quando, como quem também veio espiar. Não vai ter bebida alcoólica. As mulheres da barraca disseram que a comida é para a igreja. Seu Jurandir, do Novo Quilombo, pergunta: – Como é que a pessoa faz um coco sem uma cachacinha, Ana? Enquanto comprava uma cabeça de galo, eu digo: olha, eu não vou beber, mas já ouvi gente querendo muito que tivesse uma cervejinha, uma cachacinha. Uma delas se vira: – Tá vendo, Rosa? Eu disse a tu que era pra trazer. Manda fulano ir buscar! Trouxeram. Checklist completo. A roda já começou.


E tudo isso acontece ao mesmo tempo: as saias, as cordas, o óleo, os cachorros, a lona, a vassoura, os carros, a comida, a cachacinha que chegou depois da negação. Enquanto isso, os motores sobre rodas seguem trazendo os entes que cantam, tocam e dançam a roda. 


A roda começa aí. Na conversa que dá uma volta e meia pra chegar. Apertando um bombo que se dá em rota circular. Na boca da saia. Na cabeça no microfone. A roda, às vezes, círculo, circunferência e esfera é forma geométrica e é um estado. Um estado de chegada, de saída, talvez. “Ela gosta de comer pelas beiradas”, diz a expressão popular. Na capoeira angola, não atravessar uma roda pelo centro pode ter função pedagógica: princípio de respeito ao espaço coletivo, ensinando que a roda é um território sagrado que não deve ser interrompido; marcador: ritualidade, circularidade, corporeidade. As rodas, todas elas, fazem referência aos retornos, ciclos para construir valores futuros com presença ancestral. Ou, como diz o professor Alan Santos de Oliveira, dessa forma, o pensamento também se torna circular, o pensamento é rodante. 


É assim que esta coluna decide começar: abrindo uma roda. Caminhos Brincantes: reflexões sobre saberes e produções da cultura popular nasce com o compromisso de rodar pelos saberes e pelas produções da cultura popular paraibana sem pressa de explicar, e com a paciência de acompanhar. Se A Pauta é Cultura se propõe a falar de cultura para além da agenda de eventos, esta coluna quer ser, dentro dessa proposta, um caderno de campo compartilhado. E que entidade melhor para abri-lo do que a roda?


Vale desconfiar da ideia de que roda é só formato. Há um conjunto de estudos sobre o que se convencionou chamar de valores civilizatórios afro-brasileiros como musicalidade, oralidade, ancestralidade, corporeidade, ludicidade e a circularidade aparece, nesses estudos, como um dos princípios que os organiza. O professor Alan Santos nos convida a pensar sobre isso: enquanto a racionalidade de matriz europeia priorizou historicamente a reta e o retângulo (a fila, a grade, a linha do tempo que só vai para a frente), os povos africanos e ameríndios sustentaram, em suas práticas, uma outra geometria: a da roda, do giro, do retorno. Isso nem é força de expressão. É outro modo de organizar tempo, espaço e relação que percebemos ao adentrarmos fazeres e saberes sustentados por esse princípio motor. 


Também não é falar da roda como metáfora de harmonia e igualdade. Convido vocês a pensar com o provérbio ideográfico sankofa, do povo Akan, que orienta: nunca é tarde para voltar e apanhar o que ficou para trás. É esse o tempo da roda: “ – a cada volta, encontrava os olhos do mestre Naelson,  eu estava parada no mesmo lugar, de fora nesse momento, cada vez ele tentava me dizer uma coisa diferente”. Em sua tese sobre a capoeira angola, o pesquisador Pedro Abib chama esse mecanismo de memória como força instauradora: o passado não fica para trás, ele se atualiza, alimenta o presente e abre caminho para o futuro. É por isso que, na roda, ninguém erra ao repetir um verso antigo. A repetição é, ali, um jeito de fazer o tempo circular em vez de escapar.


A roda organiza corpos, vozes, tempos de fala e de silêncio, hierarquias de saber que não se impõem por cima, mas que circulam: chegam a você quando é a sua vez, e passam adiante quando não é mais. No coco de roda, o princípio equivalente é o do movimento contínuo,  a roda não pode parar porque parar é sair do tempo dela.


Essa distinção entre estar dentro e estar fora da roda também não é só espacial. Existe uma diferença entre observar a roda e responder a roda. O professor Muniz Sodré chama de endoperspectiva esse jeito de conhecer que só se produz de dentro de uma prática. Foi assim ontem, no coco: em um segundo, vimos duas senhoras na roda fazendo o momento da roxa. Imediatamente, corremos, eu e Arthur para compor o momento porque ia passar despercebido. Mestra Ana veio junto e, de repente, estava acontecendo ali um momento lindo. A roxa é um momento de dançar empareado, que modifica um pouco a estrutura básica do passo do coco na marcação rítmica dos pés. Característica marcante desse grupo, o Almirante do Atalaia de Forte Velho(PB). Um segundo. Uma percepção. Um estado coletivo. É na roda que temos um lugar de entrada, de saída, de pertencimento, de propriedade para fazer e, sobretudo, uma facilidade de aprender e transitar. Na roda, existe uma relação muito mais profunda com esse fazer, com os repertórios, com os códigos e com a própria dinâmica da roda. Aprende-se entrando, errando dentro da roda, sendo corrigida pela própria percepção construída dentro dela. Por tudo isso digo que a roda é entidade, e não apenas figura de linguagem. Um agente que reúne, distribui, inclui, ensina, cobra, acolhe. E faz tudo isso sem cerimônia, entre uma cabeça de galo e uma cachacinha que ninguém sabia se ia ter. 


Esta coluna vai voltar muitas vezes a essa ideia: a de que a cultura popular pensa, e pensa com rigor, de maneira rodada. Cada edição será uma tentativa de caminhar por esses saberes com essa mesma disposição: de quem chega, senta, ajuda a varrer se for preciso, observa e só depois começa a perguntar. Que venham as próximas rodas.


 
 
 

5 comentários


Que maravilha, Lua! Parabéns! ;-)

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Adorei seu texto, Lua. Com todo o tempero que vem da vivência de dentro da roda.

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Chico Santana
Chico Santana
20 de ago.

Muito bom, Lua! Obrigado pelo compartilhamento tão necessário nos tempos atuais. Seguimos na roda!

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rosa_almadiniz
20 de ago.

A perspectiva de quem tá de dentro (endoperspectiva) tem uma riqueza de significados imensa pra quem tá de fora e quer entender melhor. Parabéns! Sua escrita nos leva pra dentro dessa roda de saber/aprender com cuidado e humildade. “Alguém me avisou a pisar nesse chão devagarinho”.

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Lua Camboatá
Lua Camboatá
20 de ago.
Respondendo a

Tem um coco sobre isso também: pisei na ponta da pedra, eu vi a pedra abalar, quem anda por terra alheia, pisa no chão devagar.

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