Andrei Lira
- 5 de ago.
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Foto: João Aires
por Lívia Maria
O paraibano Andrei Lira está de volta à cena musical depois de um período de afastamento da música, marcado por um longo processo de reorganização pessoal e profissional. Em maio deste ano, fez seu retorno aos palcos com a estreia de Abstinência (2026), single que conta com participação do grupo Tela Azzu, apresentado na 9ª edição do Festival de Música da Paraíba. A faixa, que se sagrou finalista na competição principal e conquistou o 3º lugar no Júri Popular, antecipa o lançamento de seu primeiro disco solo, Ao hoje tudo, previsto para 2026, trabalho que marca uma nova fase em sua trajetória.

Foto: Funesc/ Divulgação
Andrei Lira fala de seu retorno à música como quem atravessou uma longa distância para chegar de volta ao ponto de partida. O movimento é o de um artista que passou pelo esvaziamento, pela dúvida e pela frustração com os próprios limites, até reencontrar no fazer artístico uma necessidade incontornável. “Eu crio música porque simplesmente não consigo não fazer”, resume. A frase, dita quase como uma confissão, ajuda a entender a força com que ele encara sua nova fase na música.
Antes de assumir o próprio nome como frente de um trabalho autoral, Andrei passou pela banda Tenaz, com a qual lançou os EPs Desperto Contido (2019) e Sereno (2022). Com o fim do grupo, porém, veio também um período de reclusão: Andrei precisou se afastar da música antes de reencontrar o próprio caminho artístico. A pandemia de covid-19, um acidente que o deixou seis meses sem andar e as dificuldades materiais de sustentar uma trajetória artística, foram empurrando Andrei para longe da música. Ele chegou a entrar no Curso de Bacharelado em Música da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), mas o fato do curso ter aulas em turno integral inviabilizou a permanência. Foi preciso trabalhar em outras áreas e deixar a arte “para quando desse”.
“Quem é que tem condição de fazer um curso integral, se dedicar da maneira que a música requer e trabalhar, manter uma casa e cuidar da da família? É muito complicado. Eu tentei, mas falhei e tive que largar o curso”, reflete. Ao decidir sair do curso, Andrei parece ter tomado também uma decisão consciente de parar de tentar emplacar uma carreira como músico, também motivado por questões sócio-econômicas. “Eu decidi que realmente não queria mais, estava cansado de fazer isso e pensei que não ia ter o retorno financeiro que seria massa para poder até ajudar a produzir mais coisas. Então assim, pensei: vou arrumar um trampo, vou trabalhar e deixar a arte para para quando tiver num final de semana com o violão, sabe? Eu estava muito desligado disso”, complementa.
O afastamento, porém, não apagou o seu ímpeto criativo. A música continuava presente na sua vida em forma de melodia e de letras que insistiam em nascer no seu dia-a-dia. “Nesse tempo que eu que a banda acabou, eu estava em casa e nos outros projetos em outras áreas da vida, mas sempre tinha uma melodia, um violão tocando, uma coisa que me trazia uma nostalgia. E, assim, nesses dois anos, de 2022 até 2024, que foi quando eu voltei a cantar, era música direto”, conta. Diante das músicas gestadas no período, Andrei pensou que não deveria desperdiçar o material, decidindo assim voltar a trabalhar ativamente nas suas produções autorais, mesmo que de maneira mais pausada e possível dentro da sua rotina.
O retorno ganhou corpo quando a música Caleidoscópio foi aprovada para o Festival de Música da Paraíba de 2023 e ele voltou a se sentir confiante com o seu trabalho como músico. O envio da canção para o festival foi um movimento que o próprio Andrei define como uma “chacoalhada” e um “tapa na cara”. ”As outras pessoas estavam botando fé naquilo, estavam acreditando naquela parada que eu estava fazendo. Então, parece que não tinha o direito de abdicar dessa área da minha vida, que eu tinha que tentar de novo, sabe? No mínimo, eu tinha que passar pelo festival, me colocar naquele naquele meio e ver o que aconteceria”, reflete sobre a época.
Com a passagem para apresentar a música ao vivo no palco do festival em mãos, Andrei precisou então lidar com as suas próprias inseguranças e o que define como “auto sabotagens” para aparecer em público como a sua melhor versão, já que se define como um artista “low profile” que “gosto de lançar minhas músicas, gosto de tocar as músicas que eu crio, só que eu não gosto de fazer show direto”. “Todo artista parece ser muito confiante, né? Você olha assim e tá todo mundo exalando confiança, cheio de si, tipo, muito empoderado. E você tem que aprender a ser dessa forma, assim, né? Por exemplo, eu não quero ser visto com a cara de depressão nos lugares, eu quero ser visto de boas. Pelo menos mostrando, né, estar feliz por estar ali. Aí eu prefiro me recolher muitas vezes, sabe?", explica.
Porém, ele reconhece que a carreira musical exige que o artista seja visto pelo público tanto no palco quanto para além dele. Essa tensão entre a vontade de aparecer e o desejo de recolhimento atravessa toda a entrevista. Andrei não se apresenta como um sujeito de performance expansiva, mas como alguém que precisou aprender a se colocar. “Tem uma questão de ser visto. Todo mundo tá sempre circulando, até para poder ser visto e fazendo show, e eu sinto que, quando vejo o Instagram das pessoas, com inúmeros shows rolando na cidade, eu fico: caraca, eu deveria estar participando disso”, diz. Ainda assim, Andrei pondera que esse movimento precisa respeitar sua própria condição de vida, marcada por limitações materiais e por um ritmo que nem sempre acompanha o exigido para se fazer uma carreira de sucesso na música. “A minha realidade hoje em dia me impede, como eu falei, de compor. Eu estou sem compor há muito tempo”, afirma, ao lembrar que para financiar a gravação do álbum que está para sair trabalhou como auxiliar de serviços gerais numa escola. “Passei dois anos limpando corredor e banheiro para poder gravar essa parada”, relata.
Após passar pelo Festival de Música da Paraíba, Andrei teve uma turnê aprovada pela Lei Paulo Gustavo, que circulou em João Pessoa, Sapé e Guarabira em 2024. Ambas as experiências parecem ter iniciado um processo de reconstrução da sua autoestima para voltar a colocar no mundo sua produção autoral, dessa vez sob um projeto solo.
“A turnê foi a parada mais massa que aconteceu. Você provar um [projeto em um] edital tão concorrido como é aqui em João Pessoa foi muito importante. A gente pôde circular nas cidades, conhecer outras pessoas… Então, foi tudo assim meio que reconstruindo um pouco da minha confiança”, explica. “Foram experiências que mostraram que realmente talvez não eu tivesse que dedicar 100% da minha vida àquilo, mas que eu podia dedicar uma parte da minha vida, sabe? E essa parte é justamente isso, de fazer uns shows de vez em quando, lançar discos, aparecer nos lugares e em shows que eu quero curtir também”, conclui.
Abstinência (2026) é o símbolo mais claro e mais recente dessa retomada. A canção foi a primeira composta depois do fim da banda Tenaz e carrega, segundo Andrei, o acúmulo de tudo o que ficou suspenso naquele período: o acidente, a pandemia, o afastamento, a sensação de improdutividade e a vontade de voltar a existir artisticamente. É uma canção de rock que está atravessada por tensão emocional, com uma base que remete ao emo e ao indie, mas sem abrir mão de uma pulsação melódica marcada por uma sensibilidade pop.
Mas Andrei não quer que se leia sua obra apenas pela via da dor. Ele fala de referências com liberdade, fazendo conviver gêneros musicais como rock, emo, indie, MPB e pitadas de artistas como Harry Styles, Djavan, Gilberto Gil, Pitty, Fresno, Paramore e Arnaldo Antunes. O gesto não parece o de um ecletismo raso, e sim de alguém que ouve música e recebe inputs criativos de todas as fontes. “Eu só comecei a ouvir mais MPB, Djavan, Gil, de 2020 para cá, para ser sincero”, diz. “Minhas referências eram essas: rock, pop e MTV.” Andrei faz questão de ressaltar essa aproximação com o pop, já que esses artistas, especialmente boybands, aparecem na sua trajetória como inspirações fundamentais. “Eu sempre tive muito muito apego pelo pop, era fã do One Direction e curto a carreira solo de Harry Styles”, fala, sorrindo, como se confessasse um segredo. Há, nessa mistura, uma biografia afetiva da escuta, e também uma recusa de pureza.
Neste sentido, Abstinência parece dialogar com um lastro estético que une a fisicalidade do rock à abertura afetiva do pop, sem tratar essas referências como campos opostos, mas como partes de uma mesma formação musical. É uma canção que soa ao mesmo tempo íntima e expansiva, construída para carregar a memória de um período de suspensão e, ao mesmo tempo, anunciar o movimento de quem decide voltar a ocupar o próprio lugar na música. O título funciona quase como uma síntese desse estado de privação – não apenas de uma coisa, mas de uma forma de viver. Ao mesmo tempo, a música abre uma nova etapa, mais segura e mais consciente, mesmo que Andrei ainda se reconheça como um artista low profile, pouco afeito à exposição contínua e às demandas que parecem vir junto com uma carreira como músico.
Ao Hoje Tudo, primeiro álbum solo deve chegar ao público ainda em 2026
Na República 714, república de músicos em João Pessoa, onde morou por um ano, Andrei encontrou um ambiente em que passou a conviver com outros músicos e produtores que, segundo ele, reacenderam o desejo de lançar um disco. A partir daí, parece ter entendido que não precisava recuperar uma ideia grandiosa de carreira para voltar a fazer sentido como artista. Bastava aceitar que a música continuava sendo, como sempre foi, um lugar de necessidade na sua vida.
“Esse foi um grande passo para eu poder materializar esse projeto de lançar esse disco. Sempre fui um cara que gosta de lançar material e sempre tive esse desejo de colocar no mundo, de ter uma obra, de lançar um disco. Eu gosto muito dessa ideia de discos. Tanto que quando o Sérgio falou: ‘Pô, velho, é melhor lançar um disco do que lançar só o EP’, pra mim foi perfeito. Eu sempre tive vontade de lançar um disco com muitas músicas e tentar contar uma história com essas músicas, tentar interligar de alguma forma uma canção na outra, uma história na outra”, conta, ao se referir ao encontro com Sérgio Pacheco, empresário por trás da gravadora paraibana Taioba Music, pelo qual sairá o álbum de estreia.
Com a confiança retomada e o apoio de agentes que acreditaram em sua obra, Andrei passou a vislumbrar e sonhar com o lançamento do disco de forma prática e com mais responsabilidade em relação às parcerias que firma. Como não poderia ser diferente, Ao Hoje Tudo está em processo avançado de produção coletiva com os músicos da República 174. Segundo Andrei, seu trabalho sempre foi atravessado pelas relações e pontes que estabelece com outros artistas, seja no período da banda Tenaz, quando se privilegiava a relação entre os membros para as tomadas de decisões sobre o trabalho, quanto agora, com seu projeto solo. Para ele, foi justamente a experiência com a banda que ele aprendeu, na prática, o que significa construir uma obra em coletivo, deixando marcas importantes, não apenas na maneira como ele entende a música, mas na forma como se posiciona diante dela.
“Acho que a maturidade que eu tenho agora, já com 32 anos, consigo identificar os espaços onde eu posso me colocar, o que eu devo falar, o que eu devo fazer, né? A quem eu devo me unir para produzir uma parada. Eu já tive muitas muitas experiências com com parceiros e parceiras de banda que não fluía, não dava certo por causa, às vezes, de falta de compromisso, falta de tempo, falta de dedicação àquele projeto. E agora não, agora eu tô com uma galera que produz muita coisa, que produz muito mais que eu. A galera que mora na república produz música diariamente. Eu só fico ali meio que tentando motivá-los a me ajudar a construir o que eu quero. E aí tá sendo muito massa, pô, tá sendo muito massa”, reflete.
Além de Abstinência, Ao Hoje Tudo reúne outras nove faixas compostas por Andrei ao longo dos últimos anos, sendo quatro com colaboração direta do grupo da República 174. “Esse lançamento vem no momento em que eu me afirmo enquanto artista, depois de idas e vindas. É quando tenho certeza de quem sou e abraço o que sempre me motivou na vida, que foi, e continua sendo, a música. É um trabalho que trata do pertencimento do indivíduo com a sua cidade, de encontro com essa cultura e cena local, de construção e contribuição para essa cena", reflete, sobre o que significa o lançamento do álbum para sua trajetória.

Foto: João Aires
Andrei planeja um show de pré-lançamento para apresentar ao público parte do trabalho ainda inédito, mas, deixando um gostinho de “quero mais”. A apresentação deverá funcionar como um ensaio público da banda que o acompanha, assim como um momento imprescindível para se conectar com o público, já que, na nova fase, Andrei parece interessado em compor e entregar não apenas um repertório, mas uma atmosfera. “Eu espero que escutem esse disco com o coração e a mente aberta. Eu tenho um grande desejo que as pessoas possam tomar as músicas que fiz pra si, imagino meu público cantando com toda força essas músicas, assim como eu canto as músicas que me tocam”, diz ao final, como quem pede menos julgamento e mais disponibilidade. “Quero que ele seja uma boa experiência para quem der oportunidade a um artista local, para conhecer algo da sua cidade.” O que Andrei tenta fazer, afinal, é devolver à música a condição de espaço compartilhado de sensações, experiências e sentimentos.
Se há um movimento central nessa história, talvez seja este: Andrei não retorna à música para se reencontrar, mas para sustentar uma forma possível de estar no mundo. “Você tem que estar em movimento”, ele diz em outro momento, quase como uma regra de sobrevivência. E é isso que sua obra, desde Abstinência, parece afirmar: que há momentos em que continuar não é avançar, nem vencer, nem se provar. É apenas permanecer girando a engrenagem, ainda que com cuidado, ainda que com dúvida, ainda que com medo — até que alguma coisa volte a fazer sentido.
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